Um gato agressivo quase nunca é um gato “mau”: na maioria das vezes ele está com medo, com dor, disputando território ou descarregando uma frustração. A agressividade é o segundo problema de comportamento felino mais atendido por especialistas, segundo a ASPCA, e também um dos que mais levam tutores a desistir do gato: o Cornell Feline Health Center cita um estudo em que 27% dos gatos entregues a abrigos por motivo de comportamento foram entregues por agressividade.

A boa notícia é que, quando a causa é identificada, quase sempre há o que fazer. Nas consultas de comportamento que faço em casa, em Belo Horizonte, o primeiro passo é sempre o mesmo: entender o que o gato está tentando comunicar antes de tentar mudar o que ele faz.

Por que o gato fica agressivo?

O gato fica agressivo quando sente que precisa se defender ou quando uma emoção forte não encontra outra saída. As causas mais comuns são:

  • medo, de uma pessoa, de um barulho ou de uma situação nova;
  • dor ou doença, que deixam o gato irritado e sensível ao toque;
  • disputa de território, principalmente em casas com mais de um gato;
  • frustração, quando ele vê algo que não consegue alcançar, como outro gato pela janela;
  • excesso de estímulo, no carinho ou na brincadeira;
  • falta de socialização quando filhote, o que torna pessoas e mãos algo estranho ou ameaçador.

Reforma, mudança de casa ou a chegada de um bebê ou de outro animal costumam ser o gatilho. Quando o quadro vem junto com esconderijo, lambedura excessiva ou xixi fora da caixa, vale ler também o post sobre gato ansioso, porque ansiedade e agressividade andam muito juntas.

Quais são os tipos de agressividade em gatos?

O Cornell Feline Health Center descreve 8 tipos de agressividade felina, e saber qual deles está acontecendo muda completamente o que fazer. Além da agressividade por dor, que explico na próxima seção, os mais comuns no dia a dia são estes:

Agressividade por brincadeira

É a agressividade por brincadeira: o gato persegue e ataca mãos, pés e tornozelos como se fossem presas. A ASPCA aponta que esse é o tipo de agressividade que os gatos mais direcionam aos tutores, e que a brincadeira bruta é comum e natural em gatos com menos de 2 anos. Ela piora quando a pessoa usa as mãos para brincar. Quando o problema é principalmente a mordida em mãos e pés, expliquei o passo a passo no post sobre gato mordendo.

Agressividade por medo

A agressividade por medo aparece quando o gato se sente encurralado e não tem para onde fugir. Ele se encolhe, achata as orelhas, sopra e só ataca se a ameaça continua se aproximando.

Agressividade no carinho

A agressividade no carinho acontece quando o gato, que parecia gostar do afago, de repente morde ou arranha. O carinho repetido vira um estímulo excessivo, e o gato avisa antes com a cauda e a pele das costas, mas o aviso passa despercebido.

Agressividade redirecionada

A agressividade redirecionada é o ataque a quem está perto, provocado por algo que o gato não consegue alcançar. O exemplo clássico é ver um gato da rua pela janela e atacar o tutor ou o outro gato da casa logo depois. Segundo a ASPCA, o intervalo entre o estímulo e o ataque pode chegar a horas, e por isso parece que o gato atacou “do nada”.

Agressividade territorial e entre gatos

A agressividade territorial é dirigida a outro gato, raramente a pessoas, e costuma surgir na chegada de um animal novo ou quando um gato volta para casa depois de uma internação. O Cornell observa que machos, e mais raramente fêmeas, podem ficar agressivos com outros machos ao chegar à maturidade social, entre 2 e 4 anos de idade.

Gato agressivo de repente pode ser dor?

Sim, e essa é a primeira hipótese a investigar quando um gato que era dócil muda de comportamento. O Cornell lista hipertireoidismo, artrose (osteoartrite), doença dentária e problemas do sistema nervoso central entre as doenças que podem causar agressividade, e a ASPCA acrescenta a toxoplasmose. Um gato com artrose pode atacar quando é pego no colo; um com dor de dente, quando alguém toca o rosto dele.

Por isso, nenhum plano comportamental começa sem exame clínico. Gatos escondem dor muito bem, e os sinais costumam ser sutis: menos pulos, mudança na postura, pelo descuidado, apetite diferente. No post sobre gato com dor mostro como observar esses sinais em casa, inclusive pela expressão do rosto. Em gatos idosos, vale suspeitar de artrose sempre que o gato fica arisco ao ser pego no colo ou tocado nas costas.

Quais sinais mostram que o gato vai atacar?

O gato quase sempre avisa antes de atacar, com o corpo, a cauda e a voz. O Cornell descreve como sinais de medo pupilas dilatadas, orelhas achatadas para os lados, bigodes puxados para trás e cauda enrolada junto ao corpo. Fique atento a:

  • orelhas viradas para trás ou achatadas;
  • pupilas dilatadas, mesmo com o ambiente claro;
  • cauda batendo de um lado para o outro ou com os pelos eriçados;
  • pele das costas tremendo ou “ondulando”;
  • corpo encolhido ou, ao contrário, arqueado de lado;
  • sopro, rosnado ou chiado;
  • olhar fixo no alvo, com o corpo parado.

Respeitar esses avisos evita a maior parte dos ataques.

O que fazer com um gato agressivo na hora do ataque?

Na hora do ataque, o mais seguro é se afastar com calma e dar espaço para o gato se acalmar. A ASPCA lembra que um gato tem 5 armas, os dentes e as 4 patas com unhas, e que o melhor jeito de lidar com um gato em postura defensiva costuma ser simplesmente evitá-lo até ele se acalmar. Na prática:

  1. Pare o que está fazendo e tire as mãos de perto, sem movimentos bruscos.
  2. Não grite, não corra atrás e não encurrale o gato.
  3. Deixe uma rota de fuga e um esconderijo acessível.
  4. Espere ele voltar ao normal antes de tentar contato, o que pode levar de minutos a algumas horas.
  5. Anote o que aconteceu antes: onde, com quem, a que horas e o que mudou na casa.

Se o ataque for entre dois gatos, nunca separe com as mãos. Um barulho alto, uma almofada ou um cobertor entre os dois interrompe a briga com muito menos risco. Mordidas de briga entre gatos podem infeccionar e formar abscessos, então qualquer ferida precisa de avaliação.

Gato laranja sibilando de boca aberta, mostrando os dentes, com as pupilas dilatadas

Como tratar um gato agressivo?

O tratamento de um gato agressivo combina três frentes: descartar dor ou doença, reduzir os gatilhos e mudar a rotina para que ele se sinta seguro. As diretrizes de necessidades ambientais da AAFP e da ISFM, publicadas em 2013, organizam um ambiente saudável para gatos em 5 pilares:

  1. um lugar seguro para se esconder e observar;
  2. recursos separados e em quantidade: comida, água, caixas de areia, arranhadores e locais de descanso;
  3. oportunidade de brincar e de exercitar o comportamento de caça;
  4. interação previsível e positiva com as pessoas;
  5. respeito ao olfato do gato, evitando perfumes fortes e limpezas que apaguem as marcas dele.

Em casa, isso vira medidas simples: sessões curtas de brincadeira todos os dias com varinha, nunca com as mãos; prateleiras e esconderijos; e, em casas com vários gatos, um conjunto de recursos para cada um em lugares diferentes. Quando dois gatos brigam, o Cornell recomenda separá-los e reapresentá-los aos poucos, trocando os ambientes por cerca de 30 minutos por vez, e avisa que o processo pode levar de semanas a meses.

Medicamento pode fazer parte do tratamento em alguns casos, mas só com prescrição veterinária e depois de tudo isso. Nunca dê calmante de uso humano ao gato.

O que não fazer com um gato agressivo?

Não puna o gato agressivo. A ASPCA explica que punição com dor, além de não mudar o comportamento, pode desencadear agressividade por dor e fazer o gato ter medo de você. Evite também:

  • borrifar água, bater, gritar ou “dar bronca” depois do ataque;
  • forçar colo e contato quando ele está tenso;
  • brincar com as mãos e os pés;
  • separar briga de gatos com as mãos;
  • esperar meses para ver se passa sozinho, principalmente se a mudança foi repentina.

Quando procurar uma comportamentalista felina em Belo Horizonte?

Procure ajuda quando os ataques machucam, se repetem ou começaram de repente, quando há crianças ou idosos em casa ou quando os ajustes no ambiente não resolveram em algumas semanas.

Na consultoria comportamental felina eu atendo o gato na casa dele, em bairros como Savassi, Lourdes, Funcionários, Serra e Belvedere, porque é ali que os gatilhos acontecem. Começo pela triagem clínica e monto um plano de manejo por escrito, revisado ao longo das sessões; em média, os casos precisam de 4 a 8 sessões para um resultado consistente. Se o seu gato está agressivo, fale comigo pelo WhatsApp e conte o que tem acontecido.

Perguntas frequentes

Gato agressivo tem cura?

Na maioria dos casos, sim: a agressividade melhora muito quando a causa é tratada. Se for dor, o tratamento da doença costuma resolver ou reduzir os ataques. Se for medo, território ou frustração, ajustes no ambiente, brincadeira diária e um plano de manejo ao longo de semanas trazem bons resultados. O que não funciona é punir ou esperar que passe sozinho.

Castrar deixa o gato menos agressivo?

A castração costuma reduzir brigas ligadas ao hormônio, como disputa entre machos e marcação de território, mas não resolve agressividade por medo, dor ou falta de socialização. Ela é uma parte do cuidado, não o tratamento inteiro. No post sobre com quantos meses castrar um gato explico a idade recomendada.

Por que meu gato ficou agressivo só comigo?

Quando o gato ataca só uma pessoa, geralmente ele associa essa pessoa a algo desagradável: medicação, banho, contenção, brincadeira com as mãos ou um susto. Também pode ser agressividade redirecionada, se essa pessoa costuma estar perto quando ele vê outro gato pela janela. Anotar quando os ataques acontecem ajuda a identificar o gatilho e a reconstruir a confiança aos poucos.